O Direito de Não Ouvir um Hino de Agressão

🎧🧍‍♀️🤍 O Direito de Não Ouvir um Hino de Agressão#

Por vezes, a paz não começa com palavras.
Por vezes, começa com a decisão de não ouvir aquilo que traz dor.

Observação#

No final de maio de 2026, durante o Campeonato da Europa de Ginástica Rítmica, realizado na Bulgária, ocorreu um episódio que rapidamente se espalhou pelos meios de comunicação e pelas redes sociais ucranianas. Durante a cerimónia de entrega de medalhas, as atletas ucranianas Sofia Krainska e Varvara Chubarova escolheram uma forma invulgar de expressar a sua posição. Quando os hinos dos representantes de países envolvidos na guerra contra a Ucrânia começaram a ser executados de acordo com o protocolo, as jovens colocaram auscultadores e cobriram o rosto com as mãos. Também recusaram os tradicionais apertos de mão. O seu gesto não foi agressivo. Não interrompeu a cerimónia. Não continha insultos nem humilhações. E foi precisamente por isso que milhões de pessoas o compreenderam.

O Que Muitas Vezes Não Reparamos#

A sociedade espera frequentemente que as pessoas suportem tudo. Ouvir. Ver. Permanecer em silêncio. Sorrir. Fingir que nada aconteceu. Sobretudo quando o protocolo assim o exige. Mas a guerra altera o significado dos sons. Para algumas pessoas, um hino continua a ser apenas parte de uma cerimónia. Para outras, ficará para sempre associado às sirenes, às casas destruídas, às cidades perdidas, às noites sem dormir e à memória daqueles que já não regressaram. Nessas circunstâncias, o direito de não ouvir deixa de ser um gesto de desrespeito e transforma-se numa forma de preservar a própria humanidade.

A Paz Como Prática#

Muitas pessoas que vivem longe da guerra imaginam a paz como algo exterior. A ausência de explosões. A ausência de armas. A ausência de perigo. Mas quem vive a guerra descobre frequentemente uma outra dimensão da paz. A paz passa a existir dentro de nós. Nos auscultadores usados durante uma sirene noturna. Num livro lido dentro de um abrigo. Num desenho feito por uma criança enquanto o mundo à sua volta permanece incerto. Na capacidade de dizer: “Não permitirei que isto entre no meu mundo interior.” É por isso que os auscultadores usados naquele pódio se tornaram um símbolo tão forte para muitos ucranianos. Não um símbolo de ódio. Mas um símbolo de limite.

Para o Futuro#

As gerações futuras terão de aprender algo importante. A humanidade não exige concordância com tudo. O respeito não exige esquecimento. E a paz não exige que as vítimas finjam que nada aconteceu. A verdadeira paz começa quando as pessoas podem permanecer honestas perante a sua própria experiência. Mesmo quando essa honestidade assume a forma do silêncio. Ou de uns auscultadores.

Conclusão#

Nem sempre podemos escolher os sons que existem à nossa volta. Mas podemos escolher quais deles deixamos entrar no nosso coração. Por vezes, essa escolha torna-se a primeira vitória silenciosa da paz sobre a guerra.

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Uma jovem atleta encontra-se no pódio de medalhas. Ela estava com auscultadores Bluetooth. Os olhos estão fechados e protegidos pelas mãos. À sua volta decorre uma cerimónia oficial, mas uma suave cúpula luminosa de silêncio envolve a sua figura. Fora dessa cúpula permanecem as bandeiras, os altifalantes e o ruído da cerimónia. Dentro dela vivem a paz, a dignidade e a liberdade interior.

Vida Pacífica. O Direito de Não Ouvir um Hino de Agressão. AP | Pivtorak.Studio. 02.06.2026
© Anna Pivtorak (Kostyuk)